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Queda livre

Momento

Comentários (0) / 7 de setembro de 2021

Um dia antes da queda livre

A expectativa é um espaço nobre para criar emoções 

Era sexta-feira, à tarde, quando eu recebi uma mensagem da minha filha no whataspp: mãe, vamos pular de paraquedas? Pensei que se tratava de uma figura de linguagem, aquele jeito simpático de dizer que você vai mergulhar em algo novo, desconhecido. De qualquer maneira, arrisquei como resposta uma interrogação. Foi o suficiente para receber de volta a confirmação de que a proposta era real.

Naquele momento, imaginei a emoção de todas as descidas de montanhas russas, somadas e multiplicadas, para tentar alcançar o que seria a queda livre de 1 minuto, do salto de paraquedas. Mais do que isso, me agarrei no segundo antes do impulso que lança uma pessoa há 4.000 metros de altura, de um avião em pleno voou.

Eu costumo rir muito quando fico nervosa. Talvez, na hora do salto, eu ria tanto que nem consiga saltar, talvez eu ria tanto que, sem querer, me jogue. Uma sequência de talvez misturado com vontade e medo ocupou a primeira fila dos meus pensamentos.

A resposta para minha filha passou pelo julgamento que as expectativas costumam fazer. E ele caprichou tanto que cheguei perto de reproduzir o possível ritmo dos batimentos cardíacos que dariam vida a experiência de ficar solta, entre o céu e a terra, em queda livre. 

As minhas perguntas para validar a segurança de um salto de paraquedas ganharam respostas quase técnicas de quem tinha tudo na ponta da língua para convencer. Tirando o medo mamãe o resto é seguro, completou minha filha depois do interrogatório. Eu tinha um argumento forte a meu favor para não precisar entregar de bandeja o medo que me deu só de imaginar o avião decolando de porta aberta. Imagine sair de dentro dele em um salto sobre as nuvens.

– Filha, eu adoraria experimentar essa adrenalina, o caso é que o meu dedinho do pé ainda está se recuperando.

– Mãe, você não precisa do dedinho do pé para saltar, só de coragem e impulso, ela disse.

– Como assim?! E,quando eu chegar no chão?

– Que é isso mãe, quando você chegar no chão você já viveu o grande momento, não vai nem lembrar que tem dedinho pé.

Com um bom esforço, sai da expectativa do medo e encontrei a expectativa de ver o mundo na distância daquele salto. Melhor ainda, me aproximar da terra, como um condor, e sobrevoar as circunstâncias. Um bem bolado entre adrenalina e curiosidade, tomou conta da minha decisão. Não era mais a Lais quem estava prestes a dizer um sim, era a expectativa. Uma possibilidade de viver, por alguns minutos, o estado de leveza e liberdade que eu me cobro tanto, em terra firme.  

O despertador tocou as 4:30 da manhã e, no efeito de quem ouviu uma trombeta, me coloquei de pé para a viagem com destino à queda livre.  

O dia da queda livre

Onde a expectativa encontra a realidade

Saímos de casa às 5 da manhã, com destino a Boituva, onde faríamos nossa estréia em um salto de paraquedas. Um silêncio ficou entre nós, enquanto terminávamos de acordar, depois de uma noite cheia de expectativas.

– Mãe, você sabe que vamos ficar 60 segundos em queda livre?

– Acho que vamos esgotar a adrenalina, filha, depois desse salto, respondi.

Não sei se por distração ou de propósito para atrasarmos e perdermos a vaga no voo, errei o caminho duas vezes; o carro estava sem gasolina, tivemos que parar no posto e com esses imprevistos o waze entregou o horário previsto de chegada, com trinta minutos de atraso. 

Foi uma das poucas vezes que eu não me preocupei em atrasar. Quem sabe não era um sinal de que fizemos um movimento por puro impulso e agora a vida poderia voltar ao normal, com as duas de volta para casa.

– Filha, liga para a empresa de paraquedismo e pergunta se tem algum problema atrasar meia hora.

E a resposta foi:

– Venham tranquilas, estamos aguardando vocês.

Seguimos em frente e, com o atraso perdoado e o pouco movimento de carros na estrada, uma hora e vinte minutos, depois, avistamos uma constelação de balões de ar acariciando o céu, com movimentos suaves. Era ali o endereço da queda livre.

– Olá, viemos para o salto, disse minha filha para a atendente.

– Ótimo, chegaram na hora certa. Preencham essa ficha, por favor.

E as questões, na ficha, não poderiam ser outras senão: você se responsabiliza por qualquer dano material que possa lhe acontecer durante a queda. Você tem problemas de coração, já teve pânico ou falta de ar persistente? Só faltou perguntar: tem medo de morrer? Que incentivo maravilhoso, ler mais de 20 cláusulas com situações inesperadas que poderiam acontecer.

– Muita gente vem saltar, por recomendação psicológica. Tem um “não sei que” que acontece quando você salta do avião que organiza algumas coisas dentro da cabeça. Foi o discurso da atendente, observando a minha aflição depois de ler aquele termo.

Caminhamos até uma arara com macacões próprios para a aventura.

– Tamanho G para as duas. Vistam em cima da roupa, ordenou a moça.

Em seguida fomos apresentadas ao instrutor e ao câmera que registraria toda a aventura. O instrutor instalou em cada uma o equipamento que garantiria a volta em segurança para terra firme. Uma filmadora profissional acompanhava cada movimento.

O instrutor deu a última orientação: Quando saltarmos, quero que você coloque a cabeça para traz, segure o colete com as mãos e dobre as pernas até encostar no bumbum. Mantenha essa posição e quando eu der um tapinha no seu ombro, abra os braços, oK?

Em menos de quinze minutos, estávamos prontas para entrar no Jeep e seguir em direção ao espaço aéreo daquela manhã ensolarada. No trajeto, a expectativa agarrou o batimento cardíaco como se quisesse fazer o apelo final que me convenceria a mudar de idéia.

Nem eu mesma consegui entender porque não funcionou. Acho que o medo ficou tão impotente diante do que estava prestes a acontecer que se refugiu em algum lugar para não perder o pose e o protagonismo que sempre teve nessas horas. 

O Jeep parou ao lado do avião (uma verdadeira Kombi com asas) e entramos de costas, escorregando com as pernas encaixadas em um banco, até o fundo da aeronave.

Um sanduíche de instrutor e novato ocupou todo o espaço e o avião decolou. Os últimos ajustes no equipamento e a recomendação: quando chegar a nossa vez de saltar, quero que você fique com o calcanhar apoiado na porta do avião e a ponta dos pés para fora. Vou contar até três, olhe para o câmera, capriche no sorriso e saltamos. 

A posição calcanhar para dentro, ponta do pé para fora, por pouco não me fez desistir. Tentei encontrar a dose de medo suficiente para alcançar esse objetivo e não tive uma pitada sequer. Talvez o medo tenha acreditado mais na minha coragem do que eu mesma.

Um por um dos aventureiros, na minha frente, se lançou, daquela porta aberta, para o vazio. Chegou a minha vez. O mundo minúsculo, lá em baixo, aguardava ansioso pelo momento de me puxar, direto ao seu encontro. Lembrei do “não sei o que” na fala da atendente.

Era tudo tão distante e tão perto que confundiu os meus sentidos; eu me vi diante de um grande cenário como se eu fosse aterrissar, descendo apenas um degrau. A queda livre teve sabor de liberdade. Sessenta segundos suspensos, no vazio de pensamentos. A gravidade observava tudo e, incrédula, me deu a chance de voar com a alma. O vento forte congelou um sorriso no meu rosto. 

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