O Grego

Momento

Comentários (0) / 21 de setembro de 2019

Dentro dos intermináveis aprendizados da vida, dia desses, tive a abençoada oportunidade de vivenciar outra incrível experiência.

Tarde de segunda feira, os ponteiros do relógio marcavam 16h57. Subindo a Consolação e driblando o caótico trânsito paulistano, me restavam apenas  03 minutos para adentrar o estacionamento da Rua Maria Antônia, antes de ser multado por um dos famosos amarelinhos.

Maldito rodízio! Além do desespero gerado pela restrição imposta, o sacrifício maior, ainda estava por vir: esperar das 17h00 até as 19h00 para começar minha aula de Pós graduação. 

Nem tinha alcançado o estacionamento e já me martirizava pelo precioso tempo que iria desperdiçar; duas horas  fazendo nada.

Ufa! 16h59, e ao menos da multa eu estava salvo. Saltei do carro, tirei o paletó e, como se já não tivesse mais pressa, desabei em um banquinho de madeira, na porta da garagem, indignado com esse modo de vida; quanta correria desnecessária… qual o sentido disso tudo?!

Mergulhado nos meus questionamentos, aos poucos, percebi a matreira aproximação de um senhor, pinta de boa gente, todo simpático, perguntando para mim o que se passava; era o dono do estacionamento, o Sr. Grego.

Abatido pelos acontecimentos, e carente de compreensão, ainda assim, doei ouvidos e atenção ao Sr. Grego. 

E foi aí, que uma grande aula teve início. Como num passe de mágica, a voz daquele sorridente senhor penetrou, na minha cabeça e suavizou os pensamentos. No começo da conversa, ele fez indagações, como se tivesse repetindo as a minhas; queria saber a razão das pessoas correrem tanto.

“Por que tanta agitação, atropelos e desesperos? Que loucura é essa?” perguntava com sua voz rouca. 

No fundo, ele não queria que eu respondesse. A experiência e a grande bagagem acumuladas lhe davam todas as respostas.

E então, já sentado ao meu lado, observando os apressados passos humanos pela rua, me presenteou com um pouco da sua história.

“Menino, faz muito tempo que eu cheguei aqui; mais de 30 anos em terras brasileiras. Não foi fácil construir tudo o que eu consegui e não é isso que me prende à vida. Viver é muito mais, e muito mais simples, também! As pessoas não vivem… simplesmente atropelam a vida! Correm para lá, correm para cá…. bando de obstinados por desejos materiais, escravos da moeda e de suas ilusões… e para quê? Acredite em mim, não vale a pena!” Ele disse. 

E, olhando para o céu, continuou:

“Esse nunca será o verdadeiro sentido do nosso existir! Observe a natureza e veja como Ela é simples, bela e sábia. Escute o cantar dos pássaros, sinta a brisa do vento, nas árvores e no rosto, sinta o cheiro das flores e veja o quanto estamos na contramão da vida. Filho, é preciso buscar a verdadeira essência!”

Não era um mero discurso poético, era uma filosofia de vida capaz de reanimar qualquer coração.

Eu ali, não perdia nem as vírgulas do seu pensamento. Homem sábio. Tinha a vida dentro de si. Mostrava, claramente que poucos são aqueles que conseguem encontrar o verdadeiro sentido da vida e se quisermos atingi-lo precisamos valorizar o simples, deixando de ser massacrados pela impetuosidade do nosso relógio e dos nossos desenfreados desejos.

Agora, já não me importava mais (e nem queria saber) que horas eram, apenas deliciava-me com a nova sensação: sentia-me mais vivo do que nunca. Que bela lição!

Extasiado pelas sábias palavras daquele pequeno grande homem, anjo divino, professor da vida, ancião da felicidade, eu pude compreender, de forma perfeita, que o tempo, o nosso tempo, somos nós que fazemos.

A partir de então, às segundas feiras, faço questão de chegar mais cedo à minha aula, naquele famoso estacionamento, onde posso ouvir do “professor” GREGO maravilhosas lições sobre a Vida. 

Como diz o pensador: “O tempo que você viveu apenas respirando não importa, importam sim os momentos em que você perdeu o fôlego vivendo”.

Texto de Mauro Smiriglio

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