Vida com História

Morte e Sucessão

Momento

Comentários (0) / 23 de junho de 2020

O post de hoje é inspirado em uma conversa com a mediadora, psicóloga, coach colaborativa nos processos de divórcio e sucessão, Miriam Bobrow, e traz um assunto que gera medo, angustia e merece ser acolhido e cuidado com atenção.

Um dos efeitos do medo é perturbar os sentidos e fazer com que as coisas não pareçam o que são. Dom Quixote, na obra de Miguel de Cervantes. 

A vida é a melhor herança que recebemos. Ela coloca em nossas mãos a responsabilidade de existir no tempo exato das coisas finitas. Nascer aciona o relógio biológico que nos leva para o outro extremo; não demora muito e o lema: o melhor que podemos fazer pela vida é evitar que ela morra, começa a espreitar a jornada e coloca no medo, um escudo poderoso de aversão à morte. 

Estamos sempre buscando as condições ideais para viver o nosso melhor potencial. Queremos mais do que apenas sobreviver. Queremos viver. Não importa a consciência de que um ciclo termina para começar outro, ficamos assombrados com o que a natureza tem de mais belo, o equilíbrio entre o viver e o morrer.  

As oportunidades, novos contextos, recomeços e conquistas diluem na mente a noção de que a vida acontece sobre delicados arranjos e camuflam a morte com um talento mágico. A beleza da vida hipnotiza as nossas emoções e desloca o gran finale de todo ser vivo para um esconderijo atentamente vigiado pelo medo. Morrer é assunto impróprio para qualquer idade, embora, no silêncio de cada um, viva a certeza desse evento, anunciado segundo a segundo, com o envelhecimento.  

Morrer não é um tema para vida e urge nos protegermos guardando distância de decisões que, de alguma forma, nos remetam a ela. É como se andássemos para trás  e nos afastássemos  diante desse grande desconhecido carregado de perdas e sofrimentos.

Pensar a vida como um grande pacote de surpresas, onde a morte é uma delas, faz o coração doer, com o risco de tudo aquilo que empenhamos na nossa missão, acabar. Essa dor aciona a chave da realidade e aponta para providências importantes na manutenção de um legado. Aparece um novo valor para a vida: a sucessão.

Que competências esperamos do atleta que receberá a responsabilidade de levar à frente a nossa marca? É um momento em que ganhamos a companhia da ansiedade, atropelados por um imenso pelotão de decisões sobre um futuro que não nos pertence mais. Um encontro com o oponente, antes combatido com grandes vitórias, e que, agora, fortalecido com a lei natural da vida, liga a contagem regressiva para as providências pós morte. Nessa circunstância, a fragilidade e a urgência de muitas ações, pode colocar o medo, em primeiro plano, como um forte inimigo. 

O touro selvagem, imóvel, fixava o jovem Ramsés. Os olhos aguçados do touro, afundados nas órbitas, não se desviavam dele. Ramsés teve então certeza de que não escaparia. Lívido, voltou-se lentamente para o pai. Ele me descobriu, disse Ramsés. Tanto melhor, disse o pai. Ele é enorme, disse Ramsés. E você o que é? Um covarde ou o filho de um rei?. Gosto de combater mas…disse Ramsés. Se não é capaz, não herdará o meu trono, disse o rei. Você está me enviando para a morte, disse Ramsés. A força dele está na sua cabeça, segure-o pelo chifre e você será um vencedor, disse o rei. Ramsés girou o laço, agarrou o chifre, derrubou o animal, mas não conseguiu matá-lo. Você está pronto, Ramsés. Mas pai eu não venci o touro, não o matei! Você enfrentou o medo, o primeiro inimigo no caminho da sabedoria. Ramsés,o filho da luz.

Só podemos vencer aquilo que reconhecemos. Assim é com o medo. Acolhê-lo como um sentimento legitimo, cria a oportunidade para encontrar recursos e enfrentá-lo. Conseguimos ver com clareza as nossas necessidades e ficamos mais confortáveis e seguros para tomar decisões.

Independente da nossa vontade, o fluxo da vida vai seguir e, se não planejarmos o destino de tudo o que ela nos ofereceu, correremos o risco de colocar a nossa herança à disposição de diferentes personalidades, ganâncias, valores, competências; ingredientes com grandes chances de produzir disputas pesadas e muito sofridas. 

A sucessão, com todos os envolvidos cientes dos seus papéis e responsabilidades não é uma sentença de morte, ao contrário, ela representa a nossa vontade em vida, gera recursos para preservar a unidade familiar e oferece a oportunidade de corrigir eventuais injustiças. A parte mais valiosa de qualquer herança.

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