Vida com História

Minuto pão de queijo

Momento

Comentários (0) / 17 de outubro de 2019

Final de tarde, eu precisava comprar algumas coisas no mercado e acompanhar minha filha em um compromisso. O trânsito fazia as suas vítimas, com a trilha sonora de buzinas e motoristas reféns da síndrome de uma metrópole onde o lema é não perder tempo.

A reunião era ao lado de um supermercado e terminou com tempo suficiente para as compras e um lanchinho. A filhota pegou uma bandejinha de sushi, na geladeira, e eu preferi outra coisa, no café super simpático dentro do mercado.

“Boa tarde, moça! Por favor, um pão de queijo!”
“Claro, a senhora aceita um café para acompanhar?” Perguntou a balconista.
“Sim, ótimo.”Respondi.
“O pão de queijo fica, ali, na padaria, a senhora pode pedir que eles servem rapidinho, e enquanto isso, dá tempo para eu preparar o seu café, tudo bem?!” Sugeriu a balconista.
“Ok!”

Fui até a padaria, a vitrine de pães estava quase completa, eu pedi três pães de queijo.

“Se a senhora esperar, em 1 minuto, vem uma nova fornada” – disse a atendente.
“Ok, eu espero.”

E nesse tempo, várias pessoas fizeram o mesmo pedido, receberam a mesma sugestão e, para não perder 1 minuto, esvaziaram a bandeja de pão de queijo frio. Duas moças, como eu, esperaram o pão quente; tivemos um tempinho para conversar sobre a emergência do tempo e sobre um tempo em que o gosto de um drops tinha tempo para derreter na boca.

“A fotografia demorava para revelar 12, 24 ou 36 poses, nem sempre com o êxito esperado: sobrava um dedo estampado na foto, olhos brilhantes, cabeças cortadas e ninguém morria por isso.” Disse uma das moças.

No tempo que dissolve os momentos, sem as pessoas perceberem, não é permitido alcançar o pão de queijo quentinho.

“Se você chamar um Uber e ele sinalizar que vai atrasar, 5 minutos, você cancela a chamada – comentou a outra moça.”

Parece que a tolerância sequestrou o tempo. A mesma balconista que indicou o caminho do pão de queijo, comentou sobre uma cliente que não conseguiu esperar o tempo do café expresso cair na xícara e disse muito alterada:

“Eu quero que chegue um tempo em que tudo isso vire máquina.”

O tempo moderno sabota as preliminares; a boa forma do tempo é medida no rolar infinito das noticias e para não perdermos tempo, olhamos tudo, esquecemos tudo; perdemos, como chamou Walter Benjamim, a prece natural da alma, a atenção, apreciar o gosto bom de um pão de queijo quentinho.

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