Vida com História

Eclipse

Momento

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Quantos Eclipses como esse você já assistiu?

Nem o mais ingênuo diria que aquela era uma manhã comum. Tem um cheiro novo no ar e a impressão digital do vento bate portas e janelas. Cortinas de um tecido leve voam displicentes e se enroscam, vez por outra, nos galhos de um jacarandá.

A sala de jantar esta preparada para receber doze comensais. Talheres de prata, taças de cristal, guardanapos de linho vestem a mesa de madeira rústica. O cardápio não sairá da cozinha, vem de um buffet não muito longe dali. Desde que Maria precisou se ausentar para se aprimorar nas letras, o fogão ganhou uma planta decorativa e nem água ele viu esquentar. 

O silêncio avança pelos cômodos do casarão, em um sábado chuvoso. Todos saíram, até o cachorro; um modelo vira-lata que chegou sem aviso. A proximidade da hora marcada para o almoço gera uma certa aflição. Os convidados foram selecionados no critério da ordem de importância e convivência com os noivos. Hoje é o dia do pedido oficial, depois de quase dez anos juntos. Maria sempre desconfiou do longo namoro e não acredita no sucesso da decisão. Suspeita que a mãe da noiva, amiga intima da mãe do noivo, tenha uma boa influência nesse caso.  

A família da noiva ofereceu uma missa para celebrar o compromisso. A família do noivo ofereceu o almoço. O ronco do motor de um carro se aproxima, depois outro, mais um. O vazio ganha uma multidão. Um pequeno exército desembarca na cozinha e, em tempo recorde, organiza o serviço de buffet que trouxe camarões empanados, a pedido da noiva, e uma seleção de bolinhos, a pedido do noivo. Entre os funcionários que equilibram bandejas repletas de vinho e muito champanhe, tem uma jovem, magrinha, de semblante alegre e disposto, um contraste com os outros da equipe. Ela é a encarregada de supervisionar o ir e vir de quitutes e imprevistos. 

Um menino, quase adolescente, fora de peso, enche os bolsos com bolinhos de arroz. Não se sabe como, no trajeto, entre a sala e o banheiro, ele tropeça e alguns rolam para o chão. O menino continua deitado no meio do caminho e tenta alcançar os que caíram; rasteja entre as pernas adultas, distraídas com a conversa e a bebida alcoólica. 

O Eclipse do sol  é anunciado. Todos avançam para a varanda de onde se pode ter uma vista privilegiada. O menino dos bolinhos continua no mesmo lugar e fica praticamente sozinho no salão. Ele não se comove com o evento no céu. Outros interesses prendem sua atenção: um cachorrinho escondido, atrás da cadeira, buscando um eclipse de sumiço que distraia os convidados da sua presença. O menino se aproxima e joga um bolinho para ele. O cachorrinho perde o esconderijo para o instinto de xeretar a isca; não dá tempo nem de engolir e o menino arranca ele do lugar. 

Aos poucos, os convidados e os noivos reocupam o salão principal; o burburinho abafa o desespero de um cachorro rendido. Há muito o que celebrar, uma dupla de eventos, um no céu e outro na terra. O menino atravessa o salão com o brinquedo no colo; ninguém nota. Ele vai para varanda e acomoda o cachorrinho na cadeira; coloca mais um bolinho na frente da pequena criatura, no mesmo momento em que Maria anuncia o início do almoço. Ele nem liga; continua dedicado ao cachorro. 

O cachorro aproveita o momento em que o menino se afasta e dá um pulo para o chão; corre, corre muito. Maria tenta deter o avanço desesperado do animal mas não consegue evitar o enlace entre as pernas dos noivos, no exato segundo de um discurso que algumas taças de champanhe convocam. O noivo se distraí, abaixa, pega o cachorro no colo e termina a declaração romântica, fixado no cachorro.

A noiva sai de perto dos dois e suspende o momento romântico. Maria observa o movimento e reconhece na cena a premonição de que aquele amor está esgotado. A jovem magrinha do serviço de buffet observa à distância, esperando um sinal para seguir com o almoço. Nada acontece. Todas as atenções recaem sobre o noivo abraçado com o cachorro. 

Um grupo de amigas rodeia a noiva e tenta disfarçar o que, como Maria, todos suspeitavam. A situação gera um enorme constrangimento aos convidados. A moça magrinha do buffet, não se contém e assume um novo papel: vai conversar com a noiva. É só um eclipse, um eclipse, entende? Vai passar, ela diz.

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