Vida com História

Chave de boca

Momento

Comentários (0) / 5 de maio de 2021

A porta lateral nunca ficava trancada. Os mais íntimos tinham essa informação, anunciavam a chegada e não se atreviam a entrar até alguém aparecer. A primeira vista,  deixá-la entreaberta parecia ser um pouco caso, preguiça ou desatenção. 

Na verdade, Dona Marita morria de medo de algum dia, Deus o livre, acontecer um acidente dentro de casa e  ninguém conseguir entrar. Preferia o risco de um gatuno se aproveitar da facilidade do que se ver entregue ao destino triste que tantas vezes assistiu no jornal. Quase trinta anos no mesmo endereço e só se assustava quando o vento teimava em bater a porta. No mais, nem os dias frios conseguiam convencer Marita a mantê-la fechada. 

Um campo verde, com algumas hortênsias, um caminho de flamboyant e um gramado que faria inveja aos melhores campos de futebol, cercavam a casa de oito quartos, distribuídos pelos corredores, em dois andares. A janela de um dos quartos dava vista para a cidade e era o lugar eleito por Marita para passar algumas horas, entre o dormindo e o acordada, no descanso diário que ela chamava de meditação. Nos fim de semana, a família grande, com muitos irmãos e sobrinhos garantia a ocupação dos cômodos; a rotina sonolenta do dia-a-dia sofria uma interrupção. Quitutes, mimos e o melhor biscoito de polvilho para acompanhar o jogo de cartas, no fim da tarde, saiam das malas junto com a preocupação de não deixar Marita muito solitária e sujeita a criar fantasmas no espaço vazio

Naquele fim de semana de casa lotada, um inesperado aconteceu. Depois de um longo almoço com feijoada e algumas caipirinhas, Marita e a excursão se esparramaram nos sofás e camas para uma pausa digestiva. O único que ficou acordado foi o cachorro de quem a idade arrancou o latido, os dentes e bons tufos de pelo. A cama dele ficava perto da porta para facilitar o ir e vir de um animal treinado, desde cedo, para fazer suas necessidades fora da casa. 

Não se sabe como, a porta fechou e o cachorro ficou para fora. Junto com ele muitas trovoadas e uma chuva, arremessada sem piedade, como se o céu estivesse se vingando de alguma coisa. O cenário de fim do mundo despertou os músculos atrofiados e ele descobriu a grande vantagem do seu tamanho; se enfiou dentro de uma caixa de ferramentas, esquecida na varanda. 

O temporal manteve a madrugada em alerta e entre martelos e chaves de boca o cachorro dormiu; e dormiu tanto que não ouviu os chamados quando o sol anunciava quase meio-dia. As buscas por ele puseram em alerta todo o bairro. Marita acusou os convidados pela porta fechada, origem daquela situação. Ninguém entregou o feito, mau feito, bem feito, o que quer que tivesse acontecido. 

O clima pesou na casa e na caixa de ferramentas que trancou o cachorro para dentro, com o latido mudo. Enquanto as buscas corriam, ele espiava tudo do esconderijo jogado diante dos olhos de todos, sem levantar qualquer suspeita. A força tarefa, na busca pelo paradeiro de quem Marita considerava como a sua melhor companhia, envolveu vizinhos e até o presente de aniversário do dono do petshop, no fim da rua, em um voo inaugural para a missão de resgate. 

O irmão mais novo de Marita, que dava uns chutes no cachorro quando ninguém estava por perto, era o principal suspeito para o ocorrido e seu nome aparecia, vez por outra, na explosão de histeria que tomou conta dela. Dava para sentir a raiva como pronunciava cada letra daquele nome.

Espiando tudo pela fresta da caixa metálica o cachorro, confortável no melhor espaço para uma boa vingança, mostrou o quanto aprendeu com a convivência humana e, sem poder latir, começou a pensar: Acho que o defeito na minha pata traseira veio de um chute desse brutamonte temporão na família, quando eu era ainda bebê; me lembro que ela ficou muito brava e não deixava ele chegar perto de mim. Eu cresci e a memória daquele episódio desapareceu na cabeça da minha dona. Todo fim semana de visita da família, eu me preparava para me defender; na época, ainda rosnava e latia, a ponto de ficar exausto, para o mau jeito típico de quem não gosta de cachorro, que esse irmão da minha dona carrega. Ontem mesmo ele me machucou só com o olhar; eu que economizo movimento tive que escapar de várias tentativas de pontapé,  desde que esse malvado chegou. O gostinho de vingança está tão bom que seria incrivel demorar bastante para me encontrarem. E tem  muita chance disso acontecer, considerando que os humanos por falta de faro não percebem o que está diante do nariz. Ah, se a minha dona tivesse faro? Ela nem lembra que tem essa caixa de ferramentas aqui. Emprestou, sei lá para quem, e quando recebeu de volta, largou nesse canto do desuso.

As buscas seguiam pelas ruas, nos grupos de whatsapp, no sobrevôo do drone que bisbilhotou cada quarteirão.

Lá pelas onze da noite, a familia se recolheu. Levas de chá e calmante não conseguiam conter o desespero de Marita. Convicta de que o irmão era o autor do sumisso, pediu para ele sair.

O brutamonte veio para varanda e procurando uma solução para se acomodar, viu a caixa de ferramentas e se aproximou.

O cachorro não se conteve e, enquanto pensava, começou a se debater: Não, tudo menos isso! Se ele me encontrar, vai sair de herói! E foi o que o cachorro conseguiu pensar, antes que o brutamonte desvendasse o seu esconderijo. 

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