As circunstâncias e suas bússolas

Momento

Comentários (0) / 26 de agosto de 2019

As circunstâncias movimentam o mundo e as pessoas. Quantas vezes você se programou para um evento e, de última hora, precisou mudar os planos? Você pode ter se frustrado e, com grandes chances, depois de um tempo, pode nem ter se lembrado mais do ocorrido.

O duro é quando as circunstâncias impõe condições drásticas de mudança; uma reviravolta que tira da zona de conforto e devolve poucas perspectivas para você se restabelecer. Muita gente perde a bússola da própria vida nesse movimento; é como se um redemoinho emendasse com outro e afastasse a pessoa do seu lugar, da sua segurança. Atordoada com as circunstâncias – desemprego, fim de relacionamento, perda de alguma coisa, a lista é enorme – o desapontamento se alinha com um estado de fragilidade emocional e mental; pronto, está organizado o pacote que pode jogar as pessoas para fora do convívio familiar e social.

No cardápio de cenas cotidianas, as ruas da cidade apresentam os mais variados grupos de gente, nessas condições. Embaixo da ponte, nos bancos das praças; muitos nem conseguem levantar do chão; vários parecem zumbis, perdidos nas próprias alucinações.

Eu caminhava em uma praça, famosa pelas obras de arte, com canteiros bem aparados, sob uma floresta centenária. Entre carrinhos de bebê e todo tipo de gente, um rapaz se destacava.

Em uma mão, ele carregava um livro e, de passo em passo, avançava uma página da história; na outra mão, segurava a coleira de uma cachorrinha.

O rapaz usava um moletom cinza, com o capuz cobrindo a cabeça, calça jeans e um chinelo diferente em cada pé. A cachorrinha estava com roupa de inverno, própria para o porte de um animal saudável.

Embaixo do braço, ele trazia uma garrafa que encheu com água do bebedouro; derramou um pouco, na mão, deu para a cachorrinha e seguiu os seus passos na leitura.

Alguns cachorros vieram brincar com a cachorrinha e eu aproveitei para me aproximar.

O nome do rapaz era Leonardo, morador de rua. Conversamos um pouco, e ele aceitou meu convite para gravar um video falando da sua história e do seu fascínio por livros.

Depois do vídeo ele me perguntou se eu poderia comprar qualquer coisa para ele comer. Era quase uma hora da tarde, e Leonardo disse que não comia desde o almoço, do dia anterior.

-Claro! Eu posso oferecer um lanche para você – eu disse.

Atravessei a rua e entrei na casa do pão de queijo. Contei que eu queria oferecer um lanche para o Leonardo e se ele poderia sentar na mesinha externa.

-Pode sim – respondeu a atendente.

Leonardo e a cachorrinha sentaram; eu perguntei o que ele gostaria de comer, na expectativa de receber uma lista tão grande que a vitrine de opções não conseguiria dar conta.

-Um cafezinho pequeno, sem açúcar, e um pão de queijo está ótimo para mim – ele respondeu.

Eu e a atendente não conseguimos disfarçar a cara de surpresa com o pedido do rapaz. Foi ai que eu percebi que estava sem a bolsa; tinha deixado dentro do carro, no estacionamento, há alguns quarteirões.

-Moça, esqueci minha carteira, no carro – eu disse para a moça do caixa.

E a segunda surpresa veio, agora:

-Pode ir buscar tranquila, senhora. Enquanto isso eu sirvo o rapaz.

Percorri os quatro quarteirões, ida e volta, em velocidade incomum para quem não costuma correr. Quando eu cheguei, ele ainda estava tomando o café. Conversamos mais um instante e a terceira surpresa aconteceu:

-Sabe moça, eu adoro ler! É a forma que encontrei para manter a cabeça ocupada, longe das drogas, e muitas gentilezas na minha direção. Muito obrigada!

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