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Comentários (0) / 10 de abril de 2022

Um conto inspirado em fatos reais

O quarteirão estava mais escuro que o de costume. Algumas lâmpadas da rua não acendiam, há semanas, e agora apenas uma fazia o trabalho por todas. Árvores centenárias guardavam o esconderijo perfeito para um gatuno espiar a rotina do entra e sai das casas de luxo que se estendiam ao longo da calçada. Não era tarde mas o silêncio dava o tom final para uma cena suspense. 

Estacionei o carro, desliguei o motor e aguardei um pouco antes de fazer o movimento que me colocaria como protagonista naquele pedaço de rua. O esforço para espantar a visão de um lobo mau aguardando para dar o bote consumiu alguns minutos, antes que eu conseguisse descer do carro. Aquele silêncio de um inicio de noite de domingo fazia um barulho enorme na minha cabeça. 

Peguei o jogo de chaves na mão e chacoalhei quase imitando o guiso de uma cobra venenosa. Eram cinco chaves e eu nunca conseguia abrir a porta com a primeira. Tomei coragem e saltei do carro. De tanto eu chacoalhar, as chaves caíram no chão. Liguei a lanterna do celular para resgatar o molho que escorregou para baixo do carro.

E foi assim, agachada no chão como quem estivesse se escondendo de alguma coisa, que eu ganhei a companhia de um par de tênis surrado. Juro por tudo que quase me enfiei de vez, embaixo carro. 

Eu tremia tanto que desisti das chaves. Bem devagar,  ergui os olhos tentando alcançar o rosto que não emitia nenhum som e permanecia parado.

O escuro ganhou mais intensidade; eu quase não podia ver o semblante do que a minha imaginação fazia parecer um par de dentes e garras. Tentei gritar e não consegui. Graças a Deus não tive um ataque de risos. Costuma me acontecer em situações tensas como aquela.

Aos poucos, fui me levantando e levantando e, de repente, eu estava mais alta que ele. A medida que ultrapassei o pescoço, pude ver um par de olhos assustado e lábios tremendo, como quem viu um fantasma. Ficamos quietos por um instante. 

Eu acomodei o medo e consegui perguntar o que ele queria. A resposta veio gaguejando até encontrar o meu ouvido e eu entender: assalto. O que? Insisti: Assalto, ele falou um pouco mais alto. Foi então que eu gritei: ASSALTOOOOO!!! E, de trás da árvore saiu um garoto que puxou o outro e correram até eu perder eles de vista. 

Na foto, obra “Acontecimento”, do artista Nelson Leirner

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