A lei e a razão

Momento

Comentários (0) / 4 de junho de 2017

A razão e o conflito vivem loucos para se encontrar. 

A calma tradicional, entre dois quarteirões nobres, é interrompida com barracas. Dá para reconhecer de longe o convite para provar o abacaxi, a melancia, a laranja: banana é pura vitamina; abacate é a gordura da moda; goiaba, caqui e figo para moça bonita. A salada de fruta ecoa no ar como um chamado oficial para uma das formas de comércio mais antigas que existe: a feira.

Essa é uma cena simples e cotidiana para a razão e o conflito se encontrarem.

Na travessa próxima dali, acontece um movimento diferente. Eu passo, por acaso, e reparo no discurso de um guarda de trânsito com o feirante.

– O Senhor não pode estacionar o caminhão aqui. Por favor pare em outro lugar.

O feirante estava muito zangado e resistente. Quase deu uma banana para o guarda. Logo, uma roda de colegas de trabalho se forma em volta deles.

– Vamos respeitar o próximo Senhor. As pessoas que moram nessa rua não tem que agüentar um caminhão, na frente da garagem. Vou repetir mais uma vez, é proibido – insiste o guarda.

E vai além. Indica algumas ruas onde o feirante pode resolver o problema sem atrapalhar a vizinhança e muito menos levar multa.

Interfiro na conversa deles:

– Seu guarda, por favor.

– Seu guarda não, agente de trânsito – ele corrige.

– Desculpa. O senhor não vai me multar por isso, né?!

Rimos um pouco e o que eu já suspeitava se confirma.

– Moça, as pessoas estão egoístas a ponto de pagar multa, encher a carteira de pontos, e não fazer nada por ninguém. Tem um código de conduta aceito na sociedade, hoje em dia, que dá nojo. É o caso dele. Eu não quero aplicar a multa eu quero que ele faça o que é certo.

E o feirante prefere levar a multa.

Dentro da feira, um burburinho substitui a oferta de verduras; a atitude do agente de trânsito é comentada como uma coisa ruim, de quem não tem o que fazer e quer atrapalhar a vida deles.

– Que absurdo multar o caminhão – diz um feirante.

– De onde saiu esse guarda? Se mete um cliente.

– Nunca ouvi tanta baboseira – completa o dono da barraca.

– Multa logo e cai fora – conclui o motorista do caminhão.

O guarda é agente de trânsito e a mudança de título mudou o comportamento dele.

A fruta, do outro lado, pelo visto é bagaço.

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