Vida com História

Uvaias aos meus pés

Natureza

Comentários (0) / 7 de setembro de 2020

Era um domingo que tinha tudo para ser preguiçoso e, ao contrário, me tirou da cama às 4:30 h da manhã. Recebi o convite de uma amiga para participar de uma prática que eleva a energia, como parte da sua formação de yoga Kundalini. Quando vi a data e a hora, num primeiro momento, achei que era uma pegadinha dela comigo.  Resolvi confirmar: Isso mesmo, quatro e meia da manhã, no Brasil e aqui na Suíça 9:30 h, ela disse. Puxa, domingo, 4:30 eu não acho que vai funcionar para mim. Vai ficar gravado?  – eu perguntei. Não, você tem que participar online ao vivo, respondeu minha amiga. Querida, não sei se eu vou conseguir, prometo tentar, eu disse. Não se preocupe, se você tiver que participar o Universo vai dar um empurrãozinho e ajudar você a sair da cama.

E o inesperado aconteceu. Quando tocou o despertador eu já estava acordada. Levantei. Uma dor nas costas, na panturrilha e nos ombros me fizeram abrir os olhos e, em movimentos lentos, acendi a luz, preparei o tapete de Yoga, peguei um copo d’água e entrei na sala do Zoom. A maioria dos participantes estava vestida de branco com um turbante na cabeça, Uma delas começou a ler um mantra; aos poucos fui me colocando à disposição daquela energia. Minha amiga iniciou o ritual com exercícios de respiração, posições e uma sequência de músicas, na sintonia de cura que alcança a alma e dá um banho de energia positiva naquilo que faz a vida ter sentido. 

Foram duas horas e meia de pura conexão com o meu corpo físico e espiritual, como se eles estivessem sendo apresentados e acomodados cada um no seu lugar de uma maneira muito confortável. Exigiu bastante de mim me manter, conforme sugerido pela minha amiga, com a coluna ereta; eu negociei comigo mesma que ninguém levanta de madrugada em pleno domingo e não se dedica àquilo que a fez levantar. Embarquei nas músicas, na respiração e, durante a prática, tudo o que eu tinha era eu mesma, o meu corpo, a minha alma e a minha respiração. Inaugurei um vazio entre o passado e o futuro; aquele era o único lugar possível. Os incômodos do medo, da ansiedade, expectativa, não me pertenciam naquele novo estado de consciência para onde a música e a respiração me levaram. Vivenciei cada minuto do convite como quem está em um grande baile e rodopia, sem pisar no chão. Quando eu menos esperava terminou a música e as dores do meu corpo. Talvez a alma estivesse fora de lugar e por isso apertava aqueles pontos que doíam, quando eu me levantei da cama. Agradeci minha amiga e o Universo pela oportunidade daquela experiência e segui leve, no ritmo das coisas possíveis.

O meu almoço aconteceu em um restaurante escolhido de última hora, com meu filho e uma amiga. A mesa, em uma sombra gostosa, do espaço ao ar livre, ficava na situação perfeita para nossa privacidade. O perfume de infância que chegou para mim, assim que eu me aproximei, foi sedutor. Imediatamente, uma frutinha amarela caiu no meu pé, depois outra, mais uma. Era uma chuva de uvaias maduras aterrizando, por todo lado, e com elas o aroma inconfundível de um período onde a ingenuidade se esbaldava em um quintal cercado daquele sabor. 

Pensei na experiência Kundalini da madrugada e percebi que minha alma estava se abastecendo de novo. Acho que tudo se acomodou tão gostoso dentro de mim que eu ganhei um brinde extra. Mais uma conexão com aquilo que não envelhece, a lembrança, a partir de uma fruta, de um momento no cantinho da infância. Um momento em que com pouco se fazia muito e se divertia o bastante para viver com um sorriso estampado no rosto. Obrigada minha amiga Suzana por ter me ajudado a seguir o fluxo natural das coisas e encontrar esse pé de uvaia.

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